terça-feira, junho 19, 2007

AMA E FAZ O QUE QUISERES!




1. Talvez de todos os desencontros com que nos brinda, desconfiemos (em segredo) que o amor seja um adereço paleolítico que se desencontrou com o desenvolvimento. Teimosamente, não se apresenta sob um formato normalizado. E, sem que se aperceba porquê, chega-nos mal embalado, sem código de barras e – pior – sem as datas de produção e de validade (o que, como compreendem, é uma ameaça, intolerável, para a saúde).
Para mais, há pessoas que se lamentam – com razão!... – de que o amor lhes chega mal acondicionado. Ou porque são premiados com a versão do «amor e uma cabana» (que, presumo, lhes permitirá ver estrelas, mas que, decerto, será responsável por resfriados e incriminantes rouquidões). Ou porque a versão rodeo as premiou com o banco de trás de um automóvel de baixa cilindrada (que desconcerta pelo cheiro a gasóleo ou pela companhia de uma folha de jornal injuriando a arbitragem). Ou porque na versão cool, o amor (...nas dunas) – não que saibamos por nós (é claro!), mas pelo que se ouve – é acompanhado por uma areia incontornável que nos sugere que o Paraíso é áspero, afinal.

2. O amor passou de moda.
Ainda sugere – a alguns resistentes – cartas de amor quando «o que está a dar» são os sms.
E faz-se de olhos nos olhos, quando a maioria das pessoas se insinua, diante do amor, pelo canto do olho.
E vive-se sem horas, lânguido e longamente. O que parece uma patetice, num tempo todo ele muito... fast-food. Salvo seja!...

3. Mas, meus amigos, o amor é a encruzilhada de sentimentos que nos separa da morte e da vida. E há, realmente, pessoas que nos viram do avesso, nos tiram as nuvens do olhar e banham de sol o nosso coração. Acerca delas falamos de amor, como se ele fosse um sentimento... Mas não é. É uma consensualidade de sentimentos. Daí que a tranquilidade do amor nos rebulice e, com ela, as estrelas se insinuem onde, dantes, dominava a indiferença que nos levava a guardar o melhor do mundo... sempre para mais tarde.

4. Talvez, só aí, ao descobrirmos tudo o que o amor não é, percebamos que o amor não é uma forma de ver o mundo com os olhos do outro. É mais! A redenção com que o amor se dá passa pela anunciação de encontrar, nos olhos do outro, uma forma de ver para além dos nossos olhos e dos dele.
O amor não é bem um encontro de verdades. É melhor! É confiarmo-nos a alguém e entregar, pela mão dos olhos dele, o nosso olhar ao desconhecido, guiados pela esperança de vir até nós «um infinito de nós dois».



Sá, Eduardo. (2003, Dezembro 7). Ama e faz o que quiseres!. Notícias Magazine, 602, 8.

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quinta-feira, março 15, 2007

Pensamentos de Eduardo Sá


“Os mais velhos só aprendem quando aceitam que, para educar os outros, é necessário, em primeiro lugar, querer aprender com eles. E isso só é possível quando, nas intenções da educação, a aquisição de conhecimentos for substituída pelo carinho à sabedoria.”



“Não tem sentido que se condicione a avaliação do carácter de uma pessoa à homo ou à heterossexualidade. Se alguém imagina outras pessoas como objectos descartáveis (submetidas - como marionetas - ao desejo sexual, e se esse desejo domina todos os seus actos) então - independentemente de ser homo ou heterossexual, trolha ou erudito - é má pessoa.”



“Amar é conhecer mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece mais de nós do que nós mesmos.”



“Escolher é dividir e multiplicar ao mesmo tempo.”



“Crescemos imaginando que é possível aprender sem errar. No amor, por maioria de exigência. O que transforma, muitas vezes, o coração numa folha de cálculo. Ora, do mesmo modo que dar à luz não é tirar todas as dúvidas (mas pôr problemas), errar é aprender. E descobrir que, olhando por quem se olha, o importante nunca é saber como se faz, mas com quem se conta para chegar ao que se quer.”



“A frieza é, para todos nós, o congelador do desespero. Evita a dor que sentimos nos faça desabar, como um castelo de cartas. Por outro lado, se o ódio é uma espécie de tira-nódoas do sofrimento, a frieza é a melhor defesa contra o risco do ódio surgir como um vulcão que nos engole.”



“É certo que quase nada vale por aquilo que parece. E, no entanto, talvez o que pareça valha sobre o quase-nada que lhe falta para ser tudo aquilo que não é.”



“Nunca nascemos preparados para aquilo que parece. Mas aquilo que parece é que domina o nosso crescimento.”



“Aquilo que separa também nos liga ao crescimento, logo que unimos todas as diferenças.”



“Porque é que as pessoas (se as pensarmos em abstracto), se desencontram da sua natureza e se tornam feias e azedas, à medida que crescem? Porque, ao contrário da natureza, são escassas as vezes que aprendem com a experiência. Porque não querem? Não; porque a complexidade dos seus sentimentos e do seu pensamento é grande. E, enquanto a natureza metaboliza as diferenças em ciclos de tempo onde caberiam muitas gerações humanas, é raro que uma pessoa encontre quem transforme, num período circunscrito da sua vida, sofrimentos enquistados, sentimentos por legendar e pensamentos que, simplesmente, se intuíram, sem nunca se terem formulado.”

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