ao vento dentro de mim

que bom
ouvir-me outra vez
sentir-me outra vez
que bom
ter acordado mesmo que sem ninguém
a meu lado
ai mas que bom
dizer o que tenho para dizer
mesmo que seja ao vento
ah é tão bom
o desejo de querer dar
mesmo na ignorãncia de alguém receber
que bom
não sei se já tinha dito
ando um pouco esquecida
que bom dizia eu
o travo da vida
enlaçado no mar dos teus lábios
que contemplo
sinto no fundo de mim
com ondas de inquietude
já disse
que bom...?
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vejo o teu corpo estendido
na outra margem
por ele passam
mulheres e homens
velhos e crianças
putas mendigos e drogados
amante tantas vezes
amado e odiado
nesses teus braços eu
dancei chorei caí
morri e renasci
e do cimo das tuas coxas
envolta em neblina
eu gritei sou tua
sou tua
sou tua
nesta hora temida
mas não distante
tudo me afasta
da tua boca
que sem vezes me engoliu
carrego o teu corpo
nos meus olhos
adeus!...
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as memórias passadas transportam-se em rios de água
a água fresca da fonte traz até mim novos sentidos...
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olhar nem sempre é ver
caminhar nem sempre quer dizer em frente
respirar nem sempre quer dizer viver
comer nem sempre quer dizer ter fome
beber nem sempre quer dizer ter sede
(...)
dizer amo-te nem sempre quer dizer amar
como sempre ouvi dizer
palavras leva-as o vento
e que lhe façam bom proveito
[risos] [risos] [risos] [risos] [risos]
e ficam a cada um de nós
os gestos que têm para connosco
os gestos que temos para com os outros
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Um pássaro pousou no meu sorriso e deixou-o cair e parte incerta. No seu lugar deixou rios, mares, oceanos, uma água que não pára de sair de mim na inconstância das horas que me povoam. Nunca aprendi a nadar e por isso afogo-me nesta água turbulenta, restando-me esbracejar e tentar respirar no pouco espaço que me resta. Procuro um farol das raras vezes que a minha cabeça vem à superfície mas alguém se esqueceu de deixar ali esse farol...
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um grito mudo vagueia
da minha boca fechada
para o limiar imprevisível da alma
soçobrada pelos cantos dos dias
porvir nas paredes dos teus olhos
e a sombra do que fui projecta-se
no arrebatamento das contrariedades
a dor embala-me nos seus braços...
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a estranheza da vida
estrelaçou-se nas minhas entranhas
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o teu silêncio mata-me por dentro
o meu silêncio esse então é atroz
o abraço que te quero dar mas não dou
a mão que te procura e não te encontra
o meu olhar que foge obstinadamente do teu
esganam-me a alma sobressaltada
é aquele sentimento que não encontra
o teu porto na tempestade dos oceanos
é a chuva que não pára de sair de mim
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a acácia no verão devora a terra
lamentando a cor das suas folhas
na vã tentativa do seu lamento
alimentar com água a árida terra
a acácia no verão grita aos céus
na esperança dos seus clamores
fazerem tremer as impávidas nuvens
que pairam sobre as nossas cabeças
lamentos
gritos
choros
tremores
sensações desertas
terra infértil
céu electrico
a acácia no meio do círculo
tumultuoso das ondas do teu sorriso
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o tempo errado
o tempo certo
provavelmente só tempo
tempo que ninguém controla
que entra por nós adentro
com os seus trovões
com as suas chuvas
com o seu calor
coisas que acontecem
o cabelo que cai
a lágrima que desce
a mão que treme
o pulmão que não respira
o olho que se esfrega num tique
o estomâgo que teima em dar voltas
e voltas e voltas e voltas
o coração que estremece
coisas que acontecem
um cigarro que se fuma sem razão
um livro que se folheia pelo vento
um whisky que afoga a perdição
um pão com bolor que se leva à boca
um café quente que se entorna nas calças
um jornal rasgado na notícia que querias ler
uma carta que teima em não chegar
um poema que se escreve no grito da alma
coisas que acontecem
naquela infíma parte de todos nós
que não controlamos
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as folhas amarelas caem
quando o vento as abraça
no murmúrio da tua voz
ilaçada de pérolas ferozes
no chão coberto pelo fogo
as linhas da tua sombra
tomam-se de vida agreste
como o mar toma-se de rio
aí nesse instante assombroso
as ruínas de um velho teatro
implodiram ao uivar de um lobo
o silêncio cobria o vento agora
e o movimento dos teus olhos
raspava muito ao de leve no meu braço
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a lágrima escorre pela face do mar
dançado eroticamente entre as algas
do teu corpo líquido de um azul
verde das tuas costas que no meu
ornato são mera quimera
onde os meus olhos lançam
rios sedentos da tua posição de musa
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O ínico foi do fim nunca do próprio início quando tu serenamente mexias o café fazendo círculos geometricamente perfeitos e a tua mão não saía do teu joelho. Olhavas para a espuma do café, perdias nela o teu olhar inquiteto e o teu sorriso vesciral.
A minha presença era mais uma ausência.
Invejei ser a espuma de um café.
As palavras eram de silêncio.
Os gestos viciados.
Os sentimentos armazenados num baú perdido.
A conta veio pela mão do empregado mas o teu olhar já tinha
saído à muito tempo e pagei eu a conta.
Não era muito dinheiro mas era daquele café que não era eu mas a espuma do teu olhar.
Não tinha dinheiro comigo nem o teu nem o meu sorriso.
Não foi preciso o corpo para pagar.
Só um pedaço do meu coração.
Saí para a rua e perdi-me nos paralelos da cidade.
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O corpo é a prisão da alma...
nem sempre a prisão mais bonita...
quando a beleza não atinge ambos os patamares
ficas a perder...
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Sinto-me...

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O mundo esta mais belo
O sol recusa-se a se deitar
cobrindo os nossos corpos de calor
Os rios estão tão calmos
e até é possível ver os peixes a dancar
A lua não se cansa de ser cheia
diz até que está grávida...
As estrelas ordenam-se todas na noite
simbolizando a eterna dança do amor
O vento recolheu-se numa caverna
e recusa-se a sair de lá
Nas cidades as máquinas pararam subitamente
e só é possível ouvir o som harmonioso de uma valsa
Nos campo as flores desabrocham
lançando no ar o amarelo do pólen
No mar os golfinhos dançam nas ondas
e encantam as crianças com a sua meiguice
O mundo está mais belo
O mundo está em harmonia
Porque tu existes!
tu sabes quem és meu anjo:)Etiquetas: Marina Romana
Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Carlos Drummond de Andrade
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Pensamento ao acordar...
A ilusão do amor vive-se na sua ausência.
Entregamo-nos momentaneamente, mesmo que seja só de corpo, por menos do nosso valor.
Queremos mas não sabemos como obter esse afecto perdido das almas e corações estagnados.
Confundem-se os lençois quentes de uma cama de pensão com o calor do seus corações.
A lua cansada finalmente adormece e eis que acordam lado a lado duas flores.
- que horas são?
- meio dia.
- Uhm... que preguiça! (agarrando uma pétala que se desprende)
- Vamos tomar o pequeno-almoço? (diz já a rosa ao vestir-se)
And life goes on in that same coffee...

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Movimento nocturno
Mais uma noite passada. Uma madrugada a ser vivida.
Caras, corpos, mãos, olhares em busca de braços que amparem a lágrima seca e invisível de seres que se movem ao som de uma música imperceptível.
A eterna busca que de certeza só tem a de não saber quando parar. Tempo e espaço incerto num universo em movimento contínuo e transcendente.
A tua cara não me é estranha. A tua mão sinto-a no olhar de outras pessoas.
Mexo-me não sei muito bem para onde, para quem...
Mas está aí alguém?
O copo está vazio e o teu hálito distante.
Um eco soa no chão das nossas almas!
E lá fora chove para bem da agricultura...

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